domingo, 24 de junho de 2007

1º Capítulo - Parte I

Em uma tarde chuvosa de primavera no Rio de Janeiro, eu e minha família nos mudávamos do nosso apartamento próprio no Grajaú, para uma casa alugada no bairro de Campo Grande, pois meu pai tentaria um novo caminho profissional. Iria abrir um pequeno armazém, no bairro de Vila Nova, bem próximo a Campo Grande.

Na inocência dos meus sete anos de idade, fiquei encantado com aquela casa que possuía um enorme quintal. Era tudo o que sonhava, ter um espaço ao ar livre para brincar, criar um cachorro e cuidar das plantas.

Ignorando a chuva que caía, pedi a minha mãe que enchesse um regador que estava em minha mão desde que o caminhão da mudança saiu do apartamento do Grajaú e reguei o mato do quintal.

No dia seguinte o sol brilhava. Pude apreciar tudo e me deliciar no contato com a terra, com os insetos, com as minhocas, um universo que jamais imaginei existir, já que o único contato com a natureza que até então tinha tido, era com a terra batida de uma praça, perto do nosso apartamento do Grajaú.

À noite, cansado de tanto brincar em volta da nova casa. Percebi da varanda, que os garotos da rua se divertiam com brincadeiras que nunca tinha visto, como: "pique esconde", "amarelinha", "carniça". Pedi a minha mãe e ela permitiu que eu fosse participar.

Ela e meu irmão, que é mais velho que eu cinco anos, sentaram-se em cadeiras no portão da casa.

Fiz amizade, imediatamente, com os garotos, que logo arranjaram um lugar para mim nas brincadeiras.

Minha mãe conseguiu uma vaga numa escola pública perto da nossa casa, onde todos os meninos da rua estudavam. De manhã, eu ia para essa escola, onde me divertia e também estudava muito, sempre fui uma das crianças que alcançavam as melhores notas.

À tarde, após fazer todos os meus deveres de casa e lavar a louça do almoço, ia para a rua brincar e só voltava em torno das dezenove horas.

À noite, eu assistia às novelas das sete e das oito. A minha atriz preferida era Regina Duarte. Adorava seus longos cabelos escuros e lisos. Nessa época, ela era o meu ideal. Almejava ser igual a ela, quando crescesse.

Apesar das dificuldades financeiras que enfrentamos nos primeiros anos após a mudança, eu era uma criança otimista e muito feliz. Percebia o mundo como algo maravilhoso e que corresponderia a todas as minhas expectativas.

No dia do meu aniversário de dez anos, ganhei um filhote de cachorro, cuja a raça até hoje não consigo identificar, acho mesmo que fosse um "vira lata". Ele era grande, de pêlo amarelo e rasteiro e olhos redondos e brilhantes. Era a realização do meu maior sonho na infância, ter um cão.

Nesse período, sentia-me entediado com as brincadeiras dos garotos. Seus principais divertimentos eram jogar bola e soltar pipas, coisas que eu detestava. Às vezes, eu tentava o futebol para ver se, com o tempo, acabava me acostumando, mas foi inútil. Ao mesmo tempo, passei a me interessar pela brincadeira das meninas. Adoraria poder brincar de "casinha" com todas aquelas bonecas... Na época havia uma boneca chamada Susi, que tornou-se meu sonho secreto...

Sabia que todos aqueles gostos contraditórios eram indícios de algo “errado” comigo. No entanto, não me sentia um "veado" como os garotos da rua costumavam classificar... Eu não "dava" para os outros...

Comecei a me isolar dos outros garotos e não consegui me infiltrar no grupo das meninas, pois as pessoas daquela rua eram muito conservadoras. Agiam como moradores de cidade do interior. Para eles, meninos só podiam brincar com meninos e vice-versa.

A chegada do meu cachorro, Rex, fez com que encontrasse um novo divertimento. Quando voltava do colégio, corria para vê-lo. Dava banho nele, dava comida e água. E ficávamos o resto da tarde brincando.

Um dia ouvi uma conversa entre meu pai e minha mãe.

- Madalena! Você não acha que esse menino é um tanto esquisito?

- Esquisito como?

- Sei lá... Ele não age como os outros meninos. Tá sempre enclausurado dentro de casa, brincando com esse cachorro ou com folha de árvore.
- Eu costumava substituir as bonecas que gostaria de ter, por folhas de árvore. Minha imaginação fazia o resto...

- Acho que não, Ricardo. Ele sempre foi assim, quieto.

- Não! Tem uma coisa estranha! Eu vou fazer o seguinte, vou levar ele pra passar uns dias lá na casa da minha irmã. Pode ser que lá, ele se enturme com o Cláudio e ele acabe colocando esse garoto mais agitado. Homem tem que ser agitado! Subir em árvore, jogar bola, brigar!
- Ali começava o esforço do meu pai em me transformar naquilo que nunca consegui ser, um homem...

4 comentários:

Raphael Martins disse...

E até hoje alguns pais agem assim...

Madi Muller disse...

Tô começando hoje,a cada dia vou ler um pouquinho mais!

Anônimo disse...

Muito profundo e doloroso tudo o que você passou. Família é algo muito complicado

Ricardo Oliveira disse...

Após anos procurando este livro reencontrei, realmente recomendo este livro. na época que li a anos atras senti muita saudade, estou matando agora!!!